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Amor em Vênus

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“Só o amor constrói”, diz o ditado, para indignação dos engenheiros. Mas tem uma coisa que o amor destrói e não causa nenhum protesto: a noção. Um apaixonado é um ser geneticamente modificado. Onde antes havia pés, de repente nascem asas; sob a pele, gelatina toma o lugar de músculos; o estômago é substituído por um órgão bipolar, que ou devora qualquer coisa ou rejeita tudo; o coração incha, ocupando o tórax todo; o cérebro… O quê? Cérebro? O que é isso?

Sobre essa transmutação eu jogo a culpa, toooda a culpa, pelo desvario em que quase caí. Corria junho de 2003 quando começamos a pensar no nome do nosso livro (releia o capítulo aqui). Estávamos jantando no mesmo restaurante bacanudo onde nos beijamos pela primeira vez, de novo alternando planos, risos e litros de café. Na falta de um rascunho apropriado, eu me apropriei das toalhas de papel de todas as mesas à nossa volta, para nelas rabiscar as ideias de nome. O que começou com “Antonieta e Anacleta no Reino das Etas”, “O Castelo das Bruxas Gostosas” e “Homens São de Marte, Mulheres São Demais” acabou descambando para referências aos nossos signos.

Em quatro palpites sucessivos, a Patricia sugeriu: “Ela é aquário, eu sou touro”, depois “Ela é touro, eu sou aquário”, em seguida “Uma é touro, a outra aquário” e por fim, num lampejo de criatividade, “Uma é aquário, a outra é touro”. Com todo o desprezo que sinto por astrologia e todo o enfado que papos zodiacais me causam, concordei com “Touro no Aquário”. Admito que a letra é minha e só tenho a dizer em defesa própria que o delírio foi causado por perda amorosa de noção.

O filhote literário afinal nasceu e foi batizado de Armário sem Portas, ufa, mas não esqueci a lição. Antes que ela começasse a listar novas possibilidades esdrúxulas (“Meu ascendente é gêmeos, a lua dela é de lua”), achei por bem dizer logo: “Armário sem Portas 2, nem tem o que discutir, né, Vida?”.

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