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marginália e bibliotecas

categoria: pequenas fornadas

Marginália não é só um conjunto de bandidos, é também o conjunto das anotações feitas na margem das páginas. Os que veem os livros como sagrado objeto de culto ficam horrorizados com o “vandalismo”. Para mim, isso equivale a nunca usar sua melhor poltrona – vai que estraga!

Nós, que amamos os livros, precisamos ter com eles a intimidade carnal que a paixão exige. Por isso, escrevemos nos cantos expressões de surpresa e de discordância. Em nome dessa experiência física é que desenhamos sorrisos e setas e pontos de exclamação. Não basta que a obra entre em nós, e é para entrar nela que marcamos nossa passagem por suas bordas.

Em 1940, o filósofo norte-americano Mortimer Adler publicou “How to read a book”, do qual tirei esta frase: “Marcar um livro é literalmente uma expressão de suas divergências ou concordâncias com o autor. Essa troca é o maior respeito que você pode demonstrar por ele”.

Por causa desse hábito, não tomo livros emprestados em bibliotecas. Mas o fato de não frequentá-las não diminui meu arrebatamento diante de exemplos como estes:

http://flavorwire.com/280318/the-25-most-beautiful-public-libraries-in-the-world?all=1

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hora do rango, parte 2

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O que, onde e como se come em São Paulo – almoço

A dona da casa vai passando a caixa de sapatos e intimando: “Vai, colabora aí, ô!”. São 14h de sábado e, na casa de Carina, mais de vinte mulheres fazem samba e bebem cerveja. A frequência exclusivamente feminina se explica: elas são um time, jogam futebol “quase profissionalmente”. Acabaram de voltar de Santo André, onde perderam por 1 x 0 logo na estreia no campeonato. A capitã, confiante na união da equipe, no treino rigoroso e no apoio da torcida, havia prometido um churrasco na laje em caso de vitória. A torcida não apareceu, o time foi derrotado, mas a laje estava lá, não estava? Que é que custava fazer uma batucada e afogar nas cervas (já compradas) a lembrança daquele lance? Faltava mesmo era a carne, que o otimismo da anfitriã não chegara ao ponto de investir do próprio bolso em insumo tão caro e perecível – por muito que confiasse na união da equipe, no treino rigoroso e no apoio da torcida. Umas sambam de chuteiras, outras batucam nas próprias coxas, mas a vaquinha para o açougue, que é bom, não sai. Já deu três da tarde, Carina percorreu dois terços do grupo, e a caixa de sapatos ainda não tem trinta reais. Ao fim de duas horas alternando ameaças e franca mendicância, ela consegue angariar R$ 48,25. Desce sozinha pra avenida pensando na partida da semana seguinte, contra o São Caetano. Volta da rua com mais duas dúzias de cerveja.

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hora do rango, parte 1

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O que, onde e como se come em São Paulo – café da manhã

Em pratos plásticos cobertos com tule repousam bolos de fubá, laranja e mesclado. Na garrafa térmica preta, a legenda ‘café’ não dá margem a dúvidas, mas na branca a etiqueta é uma provocação: ‘suco do dia’. Dona Nana, Ana Maria de batismo, não se cansa de esclarecer o sabor à freguesia – faz de propósito, adora uma prosa. Em mais de trinta anos como boleira, já teve barraca em frente de obra, junto a escolas, na esquina da igreja. Há dois anos dá expediente na estação Barra Funda do metrô, de segunda a sexta, a partir das 5h30. Os clientes têm muito sono, muita pressa e poucas posses: sobre as caixas de isopor onde os quitutes viajaram, a freguesia apoia a sacola da marmita, o capacete da obra, uma pastinha já puída. Até as 7h quase todos são homens, que mastigam rápido, pagam com dinheiro trocado e ignoram as investidas de Dona Nana. “O mesclado ficou especial hoje, não ficou? O de laranja vai melhor com o suco de caju, quer provar?” Nesta quinta-feira, atendeu mais de sessenta pessoas, que pagaram R$ 4 pelo combinado. Às 8h já vendeu tudo, o de fubá acabou primeiro. Com um pano de cozinha, limpa as migalhas dos pratos (“são descartáveis, mas eu reaproveito”); fecha com um nó o saco de lixo dos copos usados (“também são descartáveis, mas eles eu só uso uma vez”), enrola a lona azul que servia de toalha e dobra com agilidade a mesinha de madeira. O tule, por praticidade ou vaidade, amarra na alça da bolsa. Antes de tomar o metrô para casa, para na banca vizinha e toma um café. É que sofre de diabetes, e o da térmica preta ela já traz adoçado de casa.

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Croniquinha

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Uma estudante de Jornalismo sai do campus Liberdade e, na esquina do prédio de Direito, é abordada por um rapaz vestido de clown, com pasta d’água no rosto e equilibrado sobre longuíssimas pernas de pau. Ele se inclina, estende o braço, e ainda assim o papel que oferece está acima da cabeça dela. Sem interesse por cursos de informática, crédito pessoal nem consultas com videntes do amor, ela recusa. Mas ele insiste.

Faz um dia lindo, de calor horroroso, talvez o expediente do palhaço só termine com a distribuição do último flyer. Ainda há três fardos na calçada, a moça se compadece – é um marcador de páginas, afinal, e para isso sempre há utilidade. Horas depois ela procura as chaves na bolsa, encontra o marcador e com grande espanto lê a pergunta branca impressa sobre fundo verde: quer ser procurador de verdade?

Sim. Nunca tinha pensado no repórter como procurador de verdade, mas claro que sim. Quer procurar a verdade e encontrar, investigar, descobrir, escrever, denunciar, mobilizar, comover! Finalmente um material promocional que não vende plano de saúde, não tira multa no Detran nem oferece fiador sem comprovante de renda. E pensar que ela quase não pegou.

O texto do verso interrompe o chamado do destino. Rompe-se a coincidência inspiradora, volta a rejeição aos panfletos de rua. “Dogma, bom de verdade” oferece no metrô Liberdade um curso preparatório para ingresso na Procuradoria do Município de São Paulo.

Ser um procurador de verdade? Ela segue preferindo ser uma procuradora de verdades – e sem dogmas.

 

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