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Armário sem Portas – o vídeo

categoria: pequenas fornadas, tá no ar

Trinta dias matutando, três dias produzindo, três horas comemorando, três minutos feitos pra você.

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baita baiacu

categoria: pequenas fornadas, pya lima em ação

Eu tinha nove anos quando vi uma vaca pela primeira vez, no pavilhão de exposições de um parque perto de casa; morri de pena dos animais. Um ano antes, num hotel-fazenda, meu pai tinha me colocado sobre um cavalo; fiquei em pânico. Estava com mais de 30 quando conheci um (argh!) galinheiro. Esses três episódios representavam 60% da minha experiência com a vida selvagem, até que…

O fim desta história está no Baita baiacu, capítulo do “Armário sem Portas 2″.

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Monteiro Lobato e a censura: as verdadeiras questões

categoria: pequenas fornadas

Há quem diga que o papel da Literatura (das Artes em geral, na verdade) é provocar. Mas o resultado é quase sempre um reflexo da época e da sociedade que deveriam ter sido chacoalhados. Penso que toda manifestação artística deve ser analisada à luz do momento histórico em que foi criada: não existe obra desvinculada de seu contexto.

Muitas expressões usadas por Monteiro Lobato são pejorativas. Não há como “macaca de carvão” ser qualquer outra coisa diferente de racismo explícito contra Tia Anastácia. Referir-se a qualquer indivíduo em termos acintosamente discriminatórios é ruim, e ter um texto discriminatório usado em sala de aula só agrava o risco de danos, dada a autoridade da escola sobre os alunos (crianças, jovens, adultos em processo de alfabetização, idosos nas faculdades para a terceira idade).

PORÉM, a edição ou supressão do termo seria uma violência ainda maior! O passado não está sujeito a revisões. O que se pode revisar é o julgamento que se faz do que passou. Essa é a diferença crucial. A obra de Lobato é um evento consumado. Foi citada em dissertações e teses, em notícias e pesquisas, em estudos, naqueles termos. Como assim, agora, mudar?! E mudar o quê: apenas o texto original? O texto original e todas as referências feitas a ele desde a publicação?!

A ideia de modificar palavras (ou seja, fatos), de dar uma nova redação ao que já ocorreu, me faz pensar no passado sempre reescrito do 1984 orwelliano…

Agora: o julgamento pode (e, neste caso, deve!) ser atualizado. “Macaca de carvão” e outras expressões chulas eram aceitáveis nos idos lobatianos? Pois bem, não são mais. E por que não? Aí entra em cena o professor, aquele indivíduo que, ao menos em teoria, tem o status moral e a capacidade técnica de contextualizar a obra. Isso é um educador.

É evidente que uma obra não pode ser editada para se tornar aceitável: editada por quem? Aceitável para quem? E por quanto tempo? Imagine que x anos depois de uma edição o original volte a ser considerado ok… Faz-se o quê? Reedita-se o que foi editado? Que coisa de loucos!

Imaginem se, hoje, nós só tivéssemos acesso a obras “purificadas” por décadas, séculos, de “correção”. O patrimônio que estaríamos perdendo! A questão do Monteiro Lobato é literária, não de STF.

Mas a verdadeira questão, parece-me, não é essa, e sim estas: de um lado, podemos conviver com quem fomos? E de outro: estamos confortáveis com a ideia de nos tornarmos ancestrais editados?

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da importância da coerência

categoria: pequenas fornadas

Eu achava que rasgar o papel de embrulho era sinal de alegria pelo presente – acreditava que era um comportamento educado e refinado (apesar da brutalidade dos gestos) que transmitia: estou feliz por ganhar algo de você, nem importa o que seja, já adorei.

Um dia vi meu tio elogiando a delicadeza de outra sobrinha, que o beijava quase sem encostar realmente na bochecha dele (eu dava encontrões impetuosos dos quais ele se queixava; mas era uma queixa algo cômica, porque reclamava esfregando o rosto no ponto do impacto, e nunca julguei que fosse a sério. Na verdade, conforme fiquei mais velha e ganhei familiaridade com as palavras, comecei a imaginar que a pantomima dele era tanto um reconhecimento do meu domínio idiomático quanto uma deixa para que eu fizesse a piada óbvia entre a queixa e o queixo. A única razão por que nunca fiz a piada foi: ela não era óbvia para mim, e eu não quis correr o risco de destruir a imagem favorável que ele tinha a meu respeito).

A sobrinha que o beijava de leve tinha a minha idade, morava no Rio de Janeiro e vinha no Natal. Ela o adorava, via-o pouco e, ainda assim, era contida no cumprimento. No mesmo 24 de dezembro em que ele elogiou a suavidade do beijo dela, eu a observei abrindo um presente: levantou com a unha cada pontinha do adesivo, apoiou a caixa sobre a mesa, desfez as dobras do papel e só então abriu o pacote. Meu tio olhava com cara de aprovação.

Eu também adorava meu tio e o via pouco. Quando chegou minha vez, abri o presente imitando à perfeição os gestos, a velocidade e a expressão tranquila da prima carioca. Não sei mais o que era, só lembro que fiquei de pé, fui até ele, agradeci e o beijei bem de leve. Meu tio ficou sem jeito e disse que o presente não vinha dele, era do Papai Noel.

Mais tarde, durante a ceia, eu o ouvi dizer à minha tia: “Este ano nós erramos, a Karla não gostou do presente”. Nunca mais me custou beijá-lo delicadamente.

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sobre o autoengano

categoria: pequenas fornadas

Eu achava que o objetivo de mentir para alguém era enganar esse alguém. Hoje aprendi que mentir para o outro faz parte de enganar a si mesmo, mas não acho que o autoengano seja possível, então fiquei confusa. Pode ser que eu me confunda com facilidade.

“Aparentar” é o verbo que põe o julgamento que o outro faz de você acima de sua opinião sobre você mesmo. Acho esquisito colocar a avaliação alheia acima da própria verdade – significa atribuir ao externo mais importância do que a si mesmo. Pode ser que eu me tenha injustificadamente em alta conta.

“Ser” é o verbo que põe seus valores acima do juízo alheio. Para si mesmo você não aparenta, você é. Pode pintar o cabelo, fazer plástica para aparentar menos dez ou menos 20, mas continua sabendo que idade tem. Enganar-se é uma impossibilidade lógica.

Na Folha de hoje, soube que dá para comprar aprovação no Facebook: cem curtidas por R$ 50 e mil curtidas por R$ 400. No twitter, arrobas seguidoras estão à venda por preços unitários que variam de R$ 0,0006 a R$ 0,31. “Aonde a vaca vai, os bois vão atrás”, dizia a babá da minha irmã.

Os mais baratos são robôs, programinhas que só publicam spam, não interagem, “só servem para engordar o número de seguidores”. Não entendo o valor de ser seguido por uma manada fantasma. Não entendo como “engordar o número de seguidores” combina com “servem”. Algo que não existe “serve” para alguma coisa? Para qual coisa?

As arrobas mais caras representam gente de verdade, mas a falta de valor é a mesma: quem contrata o serviço passa a ser seguido, na hora, por 20 perfis. Em troca, é preciso seguir de volta não apenas aqueles 20, mas também outros clientes que compraram pacotes de seguidores.

Quem engana quem? E, mais importante: para quê?! Você sabe quando publica uma coisa bacana, que gera polegares para cima e comentários humanos; você sabe quão interessantes são seus posts no microblog; você sabe quantos anos tem, quantos amigos tem. Ou não sabe mais?

 

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hora do rango, parte 3

categoria: pequenas fornadas

O que, onde e como se come em São Paulo – jantar

Uma senhora de unhas longas, cheia de laquê no cabelo claro, suspira e mastiga. “Meu marido esteve à beira da morte, a recuperação está sendo dificílima!”. Do lado oposto da mesa, a moça rebate que seu irmão ficou bem pior, tanto que o médico nunca tinha visto um caso daqueles. Noite de sexta-feira, elas conversam na lanchonete do Hospital Samaritano, em Higienópolis. A competição pelo maior sofrimento já se estende há uns bons vinte minutos. A mais velha dá mais uma mordida no sanduíche natural. “Ah, mas é diferente, porque seu irmão é jovem…” Um pouco do recheio lhe cai no colo, enquanto continua: “Meu marido tem 68, e nessa idade, você sabe…”. Tanto esfrega o guardanapo que a ricota temperada penetra o tecido. No contra-argumento, a oponente marca um ponto: “Sim, mas isso só prova que o quadro do meu irmão era mais grave. Imagina, passar tudo isso e nem fez quarenta ainda!”. A indignação é grande e ela baba refrigerante na blusa. “Ah, que droga, vai estragar, Coca Cola não sai!” A mais velha engole o último bocado e encerra, triunfante: “Ih, isso não é nada! E eu, que manchei a saia inteirinha?”.

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