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Monteiro Lobato e a censura: as verdadeiras questões

categoria: pequenas fornadas

Há quem diga que o papel da Literatura (das Artes em geral, na verdade) é provocar. Mas o resultado é quase sempre um reflexo da época e da sociedade que deveriam ter sido chacoalhados. Penso que toda manifestação artística deve ser analisada à luz do momento histórico em que foi criada: não existe obra desvinculada de seu contexto.

Muitas expressões usadas por Monteiro Lobato são pejorativas. Não há como “macaca de carvão” ser qualquer outra coisa diferente de racismo explícito contra Tia Anastácia. Referir-se a qualquer indivíduo em termos acintosamente discriminatórios é ruim, e ter um texto discriminatório usado em sala de aula só agrava o risco de danos, dada a autoridade da escola sobre os alunos (crianças, jovens, adultos em processo de alfabetização, idosos nas faculdades para a terceira idade).

PORÉM, a edição ou supressão do termo seria uma violência ainda maior! O passado não está sujeito a revisões. O que se pode revisar é o julgamento que se faz do que passou. Essa é a diferença crucial. A obra de Lobato é um evento consumado. Foi citada em dissertações e teses, em notícias e pesquisas, em estudos, naqueles termos. Como assim, agora, mudar?! E mudar o quê: apenas o texto original? O texto original e todas as referências feitas a ele desde a publicação?!

A ideia de modificar palavras (ou seja, fatos), de dar uma nova redação ao que já ocorreu, me faz pensar no passado sempre reescrito do 1984 orwelliano…

Agora: o julgamento pode (e, neste caso, deve!) ser atualizado. “Macaca de carvão” e outras expressões chulas eram aceitáveis nos idos lobatianos? Pois bem, não são mais. E por que não? Aí entra em cena o professor, aquele indivíduo que, ao menos em teoria, tem o status moral e a capacidade técnica de contextualizar a obra. Isso é um educador.

É evidente que uma obra não pode ser editada para se tornar aceitável: editada por quem? Aceitável para quem? E por quanto tempo? Imagine que x anos depois de uma edição o original volte a ser considerado ok… Faz-se o quê? Reedita-se o que foi editado? Que coisa de loucos!

Imaginem se, hoje, nós só tivéssemos acesso a obras “purificadas” por décadas, séculos, de “correção”. O patrimônio que estaríamos perdendo! A questão do Monteiro Lobato é literária, não de STF.

Mas a verdadeira questão, parece-me, não é essa, e sim estas: de um lado, podemos conviver com quem fomos? E de outro: estamos confortáveis com a ideia de nos tornarmos ancestrais editados?

comentários

ótimo texto, pra variar. Essa besteira de politicamente correto é de doer. Conheci uma jornalista, presidente de uma entidade de escritoras aí no Brasil, que terminava os emails mandando "beijas e abraças" pras amigas e associadas. Um dia perguntei se aquilo era alguma piada interna, algum código que eu não conhecia. E a explicação dela foi que a língua portuguesa era muito machista, e que ela se recusava a terminar as mensagens com duas palavras de gênero masculino. Achei aquilo tão idiota, tá igual esse caso aí do "denegrir". O mundo, além de ser um local muito mal frequentado, tá cada vez mais chato e sisudo.

Enviada por: Silvia Dutra

Concordo com você, Flávio. O politicamente correto (quem é que ainda aguenta esse papinho?) só se presta a mascarar problemas reais aos quais ninguém dá muita bola. Denegrir como sinônimo de valorizar?! O próximo passo é o quê: judiar como sinônimo de tratar bem? Beijos

Enviada por: litros

Ao meu ver hoje rola uma censura velada, uma auto-censura camuflada sob o politicamente correto. Nome que ilustra muito bem: "LucianoHuckização". Outro dia uma jornalista amiga minha disse que recebeu uma ligação do movimento dos afro-brasileiros não sei de onde questionando o por que ela usou o termo "denegrir" assossiado a algo negativo, quando denegrir deveria ser algo bom. O que eu percebo é que não precisamos ir muito longe. Assisto sempre ao TV Pirata no canal Viva e a cada quadro eu penso. Isso não iria ao ar hoje nem F... Beijos

Enviada por: Flãvio Vargas

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