blog

da importância da coerência

categoria: pequenas fornadas

Eu achava que rasgar o papel de embrulho era sinal de alegria pelo presente – acreditava que era um comportamento educado e refinado (apesar da brutalidade dos gestos) que transmitia: estou feliz por ganhar algo de você, nem importa o que seja, já adorei.

Um dia vi meu tio elogiando a delicadeza de outra sobrinha, que o beijava quase sem encostar realmente na bochecha dele (eu dava encontrões impetuosos dos quais ele se queixava; mas era uma queixa algo cômica, porque reclamava esfregando o rosto no ponto do impacto, e nunca julguei que fosse a sério. Na verdade, conforme fiquei mais velha e ganhei familiaridade com as palavras, comecei a imaginar que a pantomima dele era tanto um reconhecimento do meu domínio idiomático quanto uma deixa para que eu fizesse a piada óbvia entre a queixa e o queixo. A única razão por que nunca fiz a piada foi: ela não era óbvia para mim, e eu não quis correr o risco de destruir a imagem favorável que ele tinha a meu respeito).

A sobrinha que o beijava de leve tinha a minha idade, morava no Rio de Janeiro e vinha no Natal. Ela o adorava, via-o pouco e, ainda assim, era contida no cumprimento. No mesmo 24 de dezembro em que ele elogiou a suavidade do beijo dela, eu a observei abrindo um presente: levantou com a unha cada pontinha do adesivo, apoiou a caixa sobre a mesa, desfez as dobras do papel e só então abriu o pacote. Meu tio olhava com cara de aprovação.

Eu também adorava meu tio e o via pouco. Quando chegou minha vez, abri o presente imitando à perfeição os gestos, a velocidade e a expressão tranquila da prima carioca. Não sei mais o que era, só lembro que fiquei de pé, fui até ele, agradeci e o beijei bem de leve. Meu tio ficou sem jeito e disse que o presente não vinha dele, era do Papai Noel.

Mais tarde, durante a ceia, eu o ouvi dizer à minha tia: “Este ano nós erramos, a Karla não gostou do presente”. Nunca mais me custou beijá-lo delicadamente.

comentários

Ou por ter entendido bem demais... Volte outras vezes, Nina!

Enviada por: litros

engraçado gostar de um texto e ter medo de dizer o que tirou dele, por talvez não entender o que realmente o emissor quis dizer.

Enviada por: Nina Flor Adlin

deixe seu comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Books