blog

hora do rango, parte 1

categoria: pequenas fornadas

O que, onde e como se come em São Paulo – café da manhã

Em pratos plásticos cobertos com tule repousam bolos de fubá, laranja e mesclado. Na garrafa térmica preta, a legenda ‘café’ não dá margem a dúvidas, mas na branca a etiqueta é uma provocação: ‘suco do dia’. Dona Nana, Ana Maria de batismo, não se cansa de esclarecer o sabor à freguesia – faz de propósito, adora uma prosa. Em mais de trinta anos como boleira, já teve barraca em frente de obra, junto a escolas, na esquina da igreja. Há dois anos dá expediente na estação Barra Funda do metrô, de segunda a sexta, a partir das 5h30. Os clientes têm muito sono, muita pressa e poucas posses: sobre as caixas de isopor onde os quitutes viajaram, a freguesia apoia a sacola da marmita, o capacete da obra, uma pastinha já puída. Até as 7h quase todos são homens, que mastigam rápido, pagam com dinheiro trocado e ignoram as investidas de Dona Nana. “O mesclado ficou especial hoje, não ficou? O de laranja vai melhor com o suco de caju, quer provar?” Nesta quinta-feira, atendeu mais de sessenta pessoas, que pagaram R$ 4 pelo combinado. Às 8h já vendeu tudo, o de fubá acabou primeiro. Com um pano de cozinha, limpa as migalhas dos pratos (“são descartáveis, mas eu reaproveito”); fecha com um nó o saco de lixo dos copos usados (“também são descartáveis, mas eles eu só uso uma vez”), enrola a lona azul que servia de toalha e dobra com agilidade a mesinha de madeira. O tule, por praticidade ou vaidade, amarra na alça da bolsa. Antes de tomar o metrô para casa, para na banca vizinha e toma um café. É que sofre de diabetes, e o da térmica preta ela já traz adoçado de casa.

comentários

deixe seu comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Books