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Croniquinha

categoria: pequenas fornadas

Uma estudante de Jornalismo sai do campus Liberdade e, na esquina do prédio de Direito, é abordada por um rapaz vestido de clown, com pasta d’água no rosto e equilibrado sobre longuíssimas pernas de pau. Ele se inclina, estende o braço, e ainda assim o papel que oferece está acima da cabeça dela. Sem interesse por cursos de informática, crédito pessoal nem consultas com videntes do amor, ela recusa. Mas ele insiste.

Faz um dia lindo, de calor horroroso, talvez o expediente do palhaço só termine com a distribuição do último flyer. Ainda há três fardos na calçada, a moça se compadece – é um marcador de páginas, afinal, e para isso sempre há utilidade. Horas depois ela procura as chaves na bolsa, encontra o marcador e com grande espanto lê a pergunta branca impressa sobre fundo verde: quer ser procurador de verdade?

Sim. Nunca tinha pensado no repórter como procurador de verdade, mas claro que sim. Quer procurar a verdade e encontrar, investigar, descobrir, escrever, denunciar, mobilizar, comover! Finalmente um material promocional que não vende plano de saúde, não tira multa no Detran nem oferece fiador sem comprovante de renda. E pensar que ela quase não pegou.

O texto do verso interrompe o chamado do destino. Rompe-se a coincidência inspiradora, volta a rejeição aos panfletos de rua. “Dogma, bom de verdade” oferece no metrô Liberdade um curso preparatório para ingresso na Procuradoria do Município de São Paulo.

Ser um procurador de verdade? Ela segue preferindo ser uma procuradora de verdades – e sem dogmas.

 

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